Quarta-feira, 25 de Outubro de 2006

O sentido de ser cristão

Ser cristão significa antes de mais ser discípulo de Cristo e ser discípulo de Cristo, por sua vez, implica desde logo expôr-se a ser apontado, rotulado, �gozado� e até perseguido.

Talvez penseis que é um pouco de exagero: que isto é verdade na China e na Arąbia Saudita, mas não para nós que vivemos numa sociedade democrática, onde cada um é livre de expressar e confessar a sua religião. Ninguém nos inquieta nem nos aponta o dedo só porque cantamos na missa das seis ao Domingo ou porque fazemos parte de um grupo de jovens que se reune frequentemente para reflectir acerca das coisas de Deus.

Sem dúvida! Se ser discípulo de Cristo consiste apenas em ir à missa ao Domingo, dar algum dinheiro para a luta contra a fome e meditar no fundo do coração sobre o mistério da SS. Trindade, se assim é, há grandes hipóteses de não nos incomodarem. Porém se ser discípulo de Cristo não é somente �praticar a religião�, mas, em primeiro lugar, viver o Evangelho, então os riscos aumentam e são muitos os que recuam na hora de lançar a mão ao arado. E porquê? Porque viver o Evangelho é sobretudo dar testemunho (gr. martyrium) que Jesus Cristo está vivo, que Ele é o Kyrios, o Senhor do Universo que transforma a vida de cada um de nós e a vida do mundo. Porque viver o Evangelho é sobretudo amar os outros como a nós mesmos, é querer para o outro aquilo que procuro para mim, é querer erguer um mundo vindo do coração, em que a lei será paz e perdão, onde todos possamos saborear a alegria dos Bem-aventurados numa verdadeira e sincera civilização do amor, isto é, uma civilização de pessoas empenhadas em construir uma comunidade de justiça e de paz que crie oportunidades para a realização das Bem-aventuranças hic et nunc, no contexto histórico e sócio-cultural em que nos encontramos.

Porém temos de ser realistas. Quem se compromete com estas coisas tem de estar disponível e espiritualmente preparado para enfrentar a incompreensão, a rejeição e até a perseguição. É porque ser cristão a sério é expor-se a ser atacado em duas frentes: uma pelos que apregoam o peace and love em prol de uma sociedade light, onde tudo é relativo e depende da situação, onde o ponto de referência moral é a consciência de cada um e a hieraquia de valores é estabelecida consoante os interesses pessoais de cada um (frente do relativismo ou sincretismo); outra pelos que pensam que só interessa a luta pela sobrevivência do sistema, sejam quais forem os meios, dos que fecham as janelas do arejamento e que se empenham com todo o zelo para que não acabem de cair as estruturas já em ruínas, pelos que tapam os ouvidos aos sinais da mudança e apregoam um quieta non movetur (não mexer em nada) para salvar a honra do convento (frente do fundamentalismo ou puritanismo).

De facto, ser discípulo de Cristo não é coisa fácil, porque antes de mais temos medo de nos comprometermos. E é compreensível! Ninguém está disposto a perder a nossa tão prezada tranquilidade, a nossa situação económico-social, o nosso prestígio académico, a nossa boa reputação. Porém se não estivermos dispostos a correr os riscos do compromisso, então nunca haveremos de criar um mundo vindo do coração e continuará a haver situações de injustiça na minha empresa só porque eu não posso reagir senão perco o emprego, continuará a haver fraudes profissionais e eu não posso dizer nada para que não me prejudiquem no avanço da carreira, continuará a haver amigos a explorarem o trabalho dos outros, mas eu não sou capaz de o chamar a atenção para que ele não me vire as costas.

Ser cristão é ser voz que grita no deserto, é ser fermento que leveda a massa, é ser luz que brilha nas trevas, é ser água viva que sacia e vinho novo a transbordar, é ser bonança depois da tempestade, é ser azeite que se coloca sobre as feridas, é ser grão de trigo que vive espiga, morre e vira pão.

Podia enumerar-vos alguns tópicos de Teologia Fundamental acerca da definição do sentido de ser cristão, mas como ninguém pode ser discípulo de Cristo sem a experiência do Encontro, convido-vos a recordar o momento em que Cristo vos disse: Vem e vê!

 João Rodrigues
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publicado por gjlumiar às 20:12

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