Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006

África minha

Filipa sobreviveu ao ataque armado à missão moçambicana onde uma portuguesa foi morta. Voltou a casa depois de dois anos inesquecíveis.

Mwadzuka bwanji?' Não diga 'bom dia!'. Pergunte a alguém como acordou. E siga o segundo preceito: 'Kwngokala', 'só ficar'. Em Fonte Boa, Moçambique, onde aesperança de vida é menos que média e embarga de surpresa quem pula os 40, o tempo não tem pressas, nem economiza as interrogações de quem aprendeu a aguardar as respostas. O relógio conhece o caminho das cinco às cinco, onde se vive e trabalha em função do Sol. Quando se deita na cama de um "pôr-do-sol como nunca tinha visto", despertam os geradores que suprimem a falta de luz.
Os meninos com quem trabalhou o alfabeto durante dois anos dormem. Já digeriram a novidade da sua tez branca e cabeça loura. "O seu cabelo é lindo, professora, parece sisal", gabavam-lhe, encandeados. A coloração de fresco de Filipa Figueiredo ilude as memórias de África, mas toda a tinta é pouca para reescrevê-las. Pintam-se com as temperaturas amenas que vão emigrando de Portugal - "Que frio que está aqui!", lança a retornada -, com as cores quentes dos rostos negros, com a batida doce dos dialectos que foi petiscando a três horas de distância de Tete ou a curtos quilómetros do Malawi, país vizinho onde os limites de Moçambique quase se esfregam, berço do 'chichewa', dialecto mais articulado em Fonte Boa. O contágio estende-se à moeda de troca.
O metical moçambicano concorre com as kwachas malawianas, na paz das transacções comerciais do mercado onde incumbia o alfaiate de fazer calças e vestidos com alegres campulanas. Para o 'estilo', como lhe diziam, ou melhor, "pó shof". "Ali tudo é negociável. Pediam noventa contos meticais por uma galinha, cerca de 3 euros. É caríssimo. Quando lá cheguei estava a pouco mais de um euro", conta a missionária. Na terra onde o pequeno negócio corre veloz, confirmou que nem tudo tem preço.
Filipa, de 25 anos, integrava o grupo de três Leigos para o Desenvolvimento (Organização Não Governamental portuguesa) destacados numa missão em Fonte Boa, no distrito de Sangano, província de Tete. Regressou a casa no último dia 6, depois de dois anos de trabalho voluntário. Idalina Gomes, de 30, e Sérgio Matias, de 28, os seus companheiros, tinham também viagem marcada para Portugal com regresso à vista, para mais um ano de missão. O projecto acabou mais cedo para ambos. A primeira foi assassinada na véspera do regresso, na sequência de um assalto nocturno à casa dos missionários. O segundo, suspendeu a renovação do vínculo depois do inesperado desfecho da missão. Sã e salva, Filipa recorda a missão possível num cenário manchado pela morte da missionária Lina.
MORTE DE UMA MISSIONÁRIA
"Era o meu segundo ano. Estava numa missão gerida pelos padres jesuítas com a colaboração das irmãs pastoras. Fui dar aulas a três turmas, cada uma com 50 alunos, entre os 13 e os 18 anos. É o que mais guardo no meu coração. Nunca pensei dar aulas, mas quando se parte em missão parte-se para tudo", sublinha Filipa. Partiu sem medos e, até então, o único alerta chamava-se pobreza. "Não conhecia nada de África. Só conhecia Moçambique dos livros e relatórios internacionais. É um dos países mais pobres. Sabia que a maior parte da população vive com menos de um dólar por dia. Mas o que é que isto significa? Não se sabe bem explicar... Nunca senti ameaças ou ofensas.

Circulava de manhã à noite à vontade. Tete foi muito martirizada pela guerra, mas ali nunca senti resistência das pessoas." A resistência, neste caso ao revés, morava, sim, no lado dos missionários, no seio de uma pequena comunidade perdida no mapa. "No local em que estávamos vivíamos nós, os padres no andar de cima, havia um internato com 200 rapazes, uma escola, um internato com 100 raparigas, mais as casas da população e oficinas da missão, como carpintarias. A missão tinha duas vertentes: apoio à escola e apoio à gestão agrícola."

À uma e meia da madrugada de 6 de Novembro, as defesas cederam."Ouvimos barulho no andar de cima. Percebemos logo o que se estava a passar. Ligo para um amigo que estava na vila a 15 km e pedi para ir à polícia. Disse-lhe que os padres estavam a ser assaltados. Não sabíamos o que fazer. Se saísse-mos eles também estavam lá fora. Ficámos vinte minutos a ouvir tiros e gritos lá em cima. Tive tempo de me vestir e calçar e pegar numa enxada".
Protecções artesanais que de pouco serviriam ao trio, prestes a ser desmembrado. "Cortaram o portão de alto a baixo, chegaram à nossa porta de casa e começaram a destruí-la com um machado. A madeira ficou em bocadinhos. Ainda pensei arrastar um móvel pesado para a porta, mas a Lina disse para saírmos pela porta das traseiras e seguimo-la. À saída havia dois caminhos. Ao virar, deixávamos de ver as pessoas. Ela voltou para a esquerda, e nós para a direita". Instante decisivo.
A noite de luar bem despertava a visão, mas Filipa e Sérgio não voltaram a ver Idalina com vida. "Achámos que ela ia em direcção a uma aldeia, para casa das irmãs, ou então tentar fugir com o nosso carro, porque levava chaves na mão. Mas nunca o saberemos. Virando para onde ela virou, a probabilidade de encontrar os assaltantes era maior. No internato onde nos escondemos pus-me à janela e apercebi-me de um corpo junto aos armazéns, era o dela. Ficámos a aguardar a chegada da polícia. Tinha sido estrangulada."
Foi o fim da linha para Lina, depois de um ataque que deixou marcas profundas. Um padre foi morto. Um irmão jesuíta foi baleado num pé. Outro antigo leigo ferido num braço. "O estranho é que não roubaram nada, duvido que tenham sido os dois suspeitos apanhados. Só sei que falavam português, nem sequer dialecto. No mínimo deviam ser seis, dois na rua, dois à nossa porta e dois na casa dos padres." A tristeza acomodou-se, mas o medo não tomou as rédeas da missionária. "Fiquei assustada, mas não era isso que me faria desistir da missão. Foi lidar de perto com a crueldade humana. Numa situação de guerra as estruturas são diferentes, mas numa missão de paz, sem tensões, parece que as coisas perdem um bocadinho o sentido. Senti como a vida humana é frágil. Somos tão altruístas e tão cruéis. É difícil perceber esta dualidade."
'GANG'

Fica a dúvida se seria o mesmo 'gang', agora reforçado, responsável por um episódio anterior que lhes deixara as antenas no ar. "Em Julho fomos assaltados. Arrombaram-nos a casa. Só queriam dinheiro e as chaves do carro, senti que não entraram para matar. Deviam ser uns três malawianos, só falavam inglês. Atiraram-me piripíri para os olhos, pensei que fosse ácido e não algo tão artesanal. Apenas dispararam para o ar. O Sérgio ainda tentou reagir com um escadote. Abriram-lhe a cabeça em três lados e uma pancada no ouvido deixou-lhe um zumbido até hoje. Ficámos com muito medo mas em nenhum momento pensámos desistir." Um dos assaltantes foi morto e fonte da Polícia de Investigação Criminal da província de Tete, defendia a teoria de retaliação.

Fechaduras novas, vigilância aumentada com um segundo guarda na missão, passeios nocturnos cerceados. A prevenção de pouco valeu e agora novos desafios esperam os futuros missionários. "A própria missão está a pensar no tipo de apoio que se pode dar sem que o centro seja ali", explica Filipa, que nem pestaneja no balanço final da operação. "Foram os melhores anos da minha vida. A felicidade não estava ali, mas parte da predisposição de nos tornarmos melhores pessoas."
E melhorar é possível. Chamem-lhe fé inabalável, simples vontade de ajudar o próximo ou reconciliação consigo mesma. Começou cedo e poupa justificações. "Não sabia explicar, mas fazia sentido", conta Filipa, fiel à missa de sábado ou domingo, quando "recarregava baterias". A inspiração que descortinou nas visitas solitárias à Paróquia de Odivelas não cedeu um milímetro com as piadas dos colegas, por frequentar a Igreja aos oito anos. "Não ia para ver os amigos. Ia e saía discretamente e fazia-me bem. Não havia igreja na minha comunidade, fazia-se a missa numa escola primária perto da minha casa".

Quis concretizar a palavra com actos e deitar mãos à obra. "Sempre tive dificuldade em racionalizar a ideia de Deus. A forma mais fácil de sentir a sua presença era com os outros. Na vida dos outros. Desde os 15, 16 anos comecei com actividades de voluntariado numa casa de saúde mental em Belas", um desafio maior ao sentir a dignidade humana tocar no extremo. "Era muito imatura e no primeiro dia de visita à casa chorei horas seguidas por me sentir perturbada com aquela realidade."

No final do 12.º ano, quis fazer uma pausa nos estudos e lançar-se a novas empresas. "Contactei algumas associações na altura com projectos de um ou dois meses. Mas queria partir um ano em missão. Devido à minha idade e falta de preparação, era complicado. Seguiu então para o Superior. Já na faculdade, durante a licenciatura em Ciências da Educação, Filipa integrou uma equipa de acção social com actividades semanais para miúdos no bairro das Furnas. Ainda no quarto ano, chegou ao encontro dos Leigos para o Desenvolvimento através de uma edição da revista CAIS. "Li o projecto e achei que se calhar era por ali. Era preciso um ano de formação. Fui à sessão de apresentação e gostei."
Recebeu preparação quinzenal no núcleo de Lisboa, passou por retiros espirituais, sentiu de perto o carisma de Santo Inácio de Loyola. "Não tinha qualquer ligação com padres jesuítas". No final, a satisfação superou as constrigências da formação. "Não foi uma escolha muito ponderada, mas partir pelos Leigos foi confortável por haver uma base comum. Identifico-me com a filosofia deles". Concluída a formação, os voluntários são canalizados para uma missão de acordo com o perfil de cada um, em função dos projectos já em campo, nas áreas da saúde, educação pastoral e promoção social. "Queria fazer formação de adultos. Preenchi um questionário e pus Moçambique como opção".
A opção virou certeza. A ajuda, embalada pelo compromisso, tornou-se mais fácil. Mas, para Filipa, a saída do ninho não foi fácil. "Os meus pais reagiram muito mal. Queriam muito que eu ficasse no país ou pela Europa. África era distante e muito perigosa aos olhos deles, tentaram dissuadir-me". A oposição dificultou a partida, emoldurada pelas saudades da banda de cá. "Isto fez-me pensar muito. Deixar a família, os amigos, é doloroso. Estudava de manhã, trabalhava num consultório médico à tarde, tinha formação à noite. Lá consegui conciliar".
RUMO A ÁFRICA
Foi em 2004 que Filipa se desapegou do quotidiano e encheu de coragem a bagagem esvaziada de luxos. A 11 de Novembro deixou Odivelas rumo a África. "Éramos oito adultos e duas crianças, uma família grande!" A comunidade ganhava braços de trabalho disciplinados por novos hábitos e rotinas. "Não tinha noção nenhuma. Os primeiros meses são de adaptação à vida em comunidade. Partilhava a casa com um grupo de desconhecidos, tínhamos horários de oração, refeições partilhadas, água canalizada não potável, que aquecia numa panela para tomar banho de água quente!", recorda. Garantias acrescidas por uma mesada de 50 euros com destino à medida das necessidades e encantos locais. "Gastava-a nos telefonemas para casa, artesanato, objectos em pau preto, e em internet. Tínhamos rede em casa, mas através de uma linha do Malawi e era muito lenta. Ia à vila que ficava a 15 km e tinha internet."
Cerca de um ano depois do início da missão, veio um mês de férias a Portugal. Com a hipótese de voltar outros 12 meses a Moçambique, nem pensou duas vezes, mesmo depois da malária fortíssima que a acometeu, do Natal passado longe da família, ou do atraso com que o resto do Mundo comparecia àquelas paragens. "Só soube do Tsunami uns meses depois!", conta a jovem. Estavam lá os meninos de braços abertos, para quem os brancos se resumem a padres, irmãs ou leigos. "A maioria nunca saiu dali. Não sabem o que é um elevador, o que são os estores da casa. Havia sempre alguém para traduzir, e alguém que falava português. Muita gente, muitas crianças", atira, sem arriscar cômputos, antes filosofias. "Passa por procurar o desenvolvimento completo. Não se trata de ajudar coitadinhos, é um compromisso com o mundo". Ficam as saudades das idas "às bancas onde havia Fanta e Coca-Cola, que estão em todo o lado!" Do 'Tea room', onde bebia chá com leite condensado, e onde cinco ou seis bocas partilhavam uma cana de açúcar. "Recordo com muito carinho. Podia ter pedido renovação mas achei que não fazia sentido, já está a ser difícil voltar. Lá é tudo muito puro". De volta à calçada portuguesa, ainda não regressou por completo à base. "Achei que me ia fazer confusão o movimento, mas é mesmo a distância entre as pessoas. Estão concentradas no seu mundo, se as abordam, desconfiam. Lá, todos me perguntavam 'como está?'. E lá saía a resposta: 'pang'ono, pang'ono', ou 'vai-se andando'.
Desempregada, tem alguns planos na manga enquanto recupera o norte. "Vou começar a tirar a carta de condução e estou a pesquisar formações. Gostava de continuar na área de cooperação e desenvolvimento, talvez rural. Mesmo no País, sair da cidade e ir para o Interior. Também gostava muito de partir em missão para a América do Sul". A acontecer, não embarcará sozinha, como na primeira vez. "Agora estou apaixonada. Conheci um estagiário na parte agrícola da missão. Temos filosofias semelhantes. Talvez um projecto a dois". Contas feitas à experiência impagável que acabou, dá a missão por cumprida. "Dei o que sou e o que conheço. Tomaria mais cuidados, mas voltaria a partir."

http://www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=221419&idselect=19&idCanal=19&p=22'

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publicado por gjlumiar às 20:34

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